quarta-feira, 17 de julho de 2013

Anacronismo Cinzento



O som da sonata triste
Agora invade minha alma
Sinto que parei no tempo
Fiquei trancafiada em 1912
Naquela casa abandonada
Que você hoje passa
E só encontra as ruínas
O cheiro do seu suor
O sabor da sua boca
O toque suave das suas mãos
São acordes que são tocados
Em todas as noites
Que permaneço solitária
Nesse anacronismo cinzento.

Tamires de Lima

Eu sou um lixo



Eu sei que eu sou
Um lixo orgânico
Um vício ambulante
Um lixo mecânico
Cervejas constantes
Entorpecentes na veia
Morfina e agulha
Em dor passageira
Rasgando a pele
Causando estrago
No fim, no cansaço
Não tenho caminho
Um velho sem ninho
Um fim feio e trágico.

Tamires de Lima

domingo, 7 de julho de 2013

Cadáver da rua 34





Eu quis aquele cadáver da rua 34
Ele cheirava à rosas matinais
Sua pele gélida tinha um ar acolhedor
Eu o quis...
Eu o quis porque ele sorria
Com um ar angelical
Eu quis deitar sob o peito
Daquele cadáver da rua 34
Ele me chamava
Mesmo com os olhos 
Levemente fechados
E sabe, ele também me queria.


Tamires de Lima

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Conhecendo um artista


Texto e foto: Tamires de Lima







Vinte e seis de abril de 2013. Era um dia de sol forte na tarde em que os estudantes do curso de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) foram visitar um Centro Cultural na cidade de Juazeiro do Norte, e lá estava eu diante de várias estátuas do rei do baião, de Padre Cícero e de santos de todos os tipos. Ponto de Cultura Mestre Noza era o nome grafado em letras pretas que estava na camisa de um artista do lugar.  

O colorido dava forma às peças, e ao mesmo tempo as cores quentes deixavam o lugar mais acolhedor. Muitas coisas interessantes havia no local, desde cordéis com nomes inusitados até peças com detalhes de dar inveja à Da Vinci. Mas não foi nada disso que fez os meus olhos brilharem como os olhos da Derpina ao ver o Derpe, e sim um senhorzinho de pele escura e traços fortes.

Ele poderia ser João, Manoel ou Joaquim... Não importa. O que realmente interessa é que a sua luz me chamou atenção, mesmo estando no fundo daquele lugar amontoado de imagens e esculturas. Comecei a conversar com ele. Puxei papo, pois já havia terminado a minha entrevista para o meu trabalho. Ele me deu seu nome de batismo e seu nome artístico. Já havia mais de vinte anos que trabalhava no local e me confidenciou que o seu grande sonho era poder ter uma prateleira só sua, onde ele pudesse colocar suas peças. Queria ter um lugarzinho só seu. Seria o seu céu onde guardaria suas artes sacras, inclusive o seu anjo de apenas uma asa.

Um artista embebido de sonhos e de álcool. O cheiro forte exalava durante os instantes em que conversamos. Acho que esse deve ter sido o motivo de ter ido com a minha cara... Contou-me que uma amiga aos doze anos de idade o influenciou a começar a produzir as peças em madeira, e o que começou como brincadeira tornou a profissão daquele homem que perdeu pai e mãe muito cedo e que viveu na rua durante vários anos. Não posso negar que me emocionei com o relato. Os olhos do homem rígido, de mãos fortes e cheias de calos, foram responsáveis pela criação de uma lágrima que desceu ao seu rosto como as águas de uma cachoeira cristalina.

Preferiu enxugá-las saindo do local. Sentiu-se envergonhado e pediu desculpas pelo ato. Ele nem imagina que esta foi a ação mais nobre e pura que vi em toda a minha visita... Eu o acompanhei e chegando próximo às suas esculturas ele me contou que não conseguia parar enquanto não terminava uma peça.
Chegou a hora de ir embora e fiquei com o coração apertado de deixar o João, Manoel Joaquim sozinho. Havia sido uma boa companhia. Eu o desejei sorte em seus sonhos e agradeci por ter sido gentil. Ele pediu para que eu voltasse e desejou que eu tivesse êxito em minha profissão...


É uma pena que não perguntei se ele tinha conta no facebook para podermos conversar mais e mais virtualmente... Meu novo amigo artista ficou apenas nos registros das minhas fotografias e da minha memória.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pousa Maria, mariposa!










Às vezes eu sinto um vendaval de figuras se enrolando em meu estômago. Elas correm, rodopiam e sobem escadas de alto a baixo. Sinto meus vasos sanguíneos como trilhas, carregando a fluidez de ácidos. Brincando e caminhando com meu alvéolo pulmonar.

Às vezes sinto uma pessoinha que desliza pelos meus tímpanos. E que ao sorrir para o alvéolo voa devagar. Oh, Maria deformada, mariposa pendendo em claves de fá. Pousa linda Maria, mariposa nesse cerúleo estelar.

Engraçado é vê-la sob minhas artérias e cheirando ao ócio da ferrugem como elas... A pequena Maria desafiando os dragões. Gritando e se esvaindo no meu eterno pulsar.



Tamires de Lima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema para minha vó






E mesmo quando todo o teu sangue secar
E eu não puder mais sentir tuas veias
E mesmo que tuas entranhas desapareçam
Eu permanecerei te amando ao luar

E mesmo que eu não sinta
O calor do teu corpo em abraços
Mesmo que vire pó
Tuas mãos, tuas pernas, teus braços
O meu amor por você não cessará

E mesmo que não restem mais trajes
Que a luz da sua vida tenha se apagado
Mesmo que tenham levado
O teu templo, inerte, tão frágil...
Eternamente ainda irei te admirar

E mesmo que tudo em você desfaleça
Que como as geleiras do Norte
O seu corpo em um jazigo permaneça
Eu ainda estarei daqui a te olhar

E mesmo que só restem os perfumes
Onde você costumava descansar
E ainda que seja comum tua ausência
E que nas noites de inverno
Não venhas mais me abraçar
Em meus sonhos querida
Você nunca morrerá

Tamires de Lima



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um tom de amor





Hoje eu preciso de estrelas
Para iluminar o meu céu
Que já não brilha...
Se você pudesse tocar as pétalas
Daquela rosada flor
Se eu pudesse tocar o orvalho
Que essa fria manhã de inverno
Nos impõe...
Tudo seria mais concreto
Mas isso não quer dizer
Que não simpatizo com o abstrato
Fito os lírios, as cachoeiras
Os rios que passam
Os barcos que tombam
Os navios que chegam
A imensidão tão larga
Que me abraça
E me aperta o peito...
Fito teus olhos
Tão doces
Que sorriem para mim
Desmancho-me como areia da praia
Você me faz flutuar
Meu corpo sucumbe
Sou uma estátua grega 
Olhando a sua imagem
Em meu espelho
Somos um só
Somos seres distintos
Em apenas um reflexo
Você a orquestra
Eu o corpo de baile
E juntos somos intensos
Juntos percorremos
Todo azul cerúleo
Da paleta de cores
Mas aí a chuva vem
E faz um novo tom aparecer
De sol para dó
Me reviro, me espalho
O pincéis pintam borrões
Sou Dalí no âmago do seu fim.

Tamires de Lima