sexta-feira, 7 de junho de 2013

Conhecendo um artista


Texto e foto: Tamires de Lima







Vinte e seis de abril de 2013. Era um dia de sol forte na tarde em que os estudantes do curso de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) foram visitar um Centro Cultural na cidade de Juazeiro do Norte, e lá estava eu diante de várias estátuas do rei do baião, de Padre Cícero e de santos de todos os tipos. Ponto de Cultura Mestre Noza era o nome grafado em letras pretas que estava na camisa de um artista do lugar.  

O colorido dava forma às peças, e ao mesmo tempo as cores quentes deixavam o lugar mais acolhedor. Muitas coisas interessantes havia no local, desde cordéis com nomes inusitados até peças com detalhes de dar inveja à Da Vinci. Mas não foi nada disso que fez os meus olhos brilharem como os olhos da Derpina ao ver o Derpe, e sim um senhorzinho de pele escura e traços fortes.

Ele poderia ser João, Manoel ou Joaquim... Não importa. O que realmente interessa é que a sua luz me chamou atenção, mesmo estando no fundo daquele lugar amontoado de imagens e esculturas. Comecei a conversar com ele. Puxei papo, pois já havia terminado a minha entrevista para o meu trabalho. Ele me deu seu nome de batismo e seu nome artístico. Já havia mais de vinte anos que trabalhava no local e me confidenciou que o seu grande sonho era poder ter uma prateleira só sua, onde ele pudesse colocar suas peças. Queria ter um lugarzinho só seu. Seria o seu céu onde guardaria suas artes sacras, inclusive o seu anjo de apenas uma asa.

Um artista embebido de sonhos e de álcool. O cheiro forte exalava durante os instantes em que conversamos. Acho que esse deve ter sido o motivo de ter ido com a minha cara... Contou-me que uma amiga aos doze anos de idade o influenciou a começar a produzir as peças em madeira, e o que começou como brincadeira tornou a profissão daquele homem que perdeu pai e mãe muito cedo e que viveu na rua durante vários anos. Não posso negar que me emocionei com o relato. Os olhos do homem rígido, de mãos fortes e cheias de calos, foram responsáveis pela criação de uma lágrima que desceu ao seu rosto como as águas de uma cachoeira cristalina.

Preferiu enxugá-las saindo do local. Sentiu-se envergonhado e pediu desculpas pelo ato. Ele nem imagina que esta foi a ação mais nobre e pura que vi em toda a minha visita... Eu o acompanhei e chegando próximo às suas esculturas ele me contou que não conseguia parar enquanto não terminava uma peça.
Chegou a hora de ir embora e fiquei com o coração apertado de deixar o João, Manoel Joaquim sozinho. Havia sido uma boa companhia. Eu o desejei sorte em seus sonhos e agradeci por ter sido gentil. Ele pediu para que eu voltasse e desejou que eu tivesse êxito em minha profissão...


É uma pena que não perguntei se ele tinha conta no facebook para podermos conversar mais e mais virtualmente... Meu novo amigo artista ficou apenas nos registros das minhas fotografias e da minha memória.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pousa Maria, mariposa!










Às vezes eu sinto um vendaval de figuras se enrolando em meu estômago. Elas correm, rodopiam e sobem escadas de alto a baixo. Sinto meus vasos sanguíneos como trilhas, carregando a fluidez de ácidos. Brincando e caminhando com meu alvéolo pulmonar.

Às vezes sinto uma pessoinha que desliza pelos meus tímpanos. E que ao sorrir para o alvéolo voa devagar. Oh, Maria deformada, mariposa pendendo em claves de fá. Pousa linda Maria, mariposa nesse cerúleo estelar.

Engraçado é vê-la sob minhas artérias e cheirando ao ócio da ferrugem como elas... A pequena Maria desafiando os dragões. Gritando e se esvaindo no meu eterno pulsar.



Tamires de Lima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema para minha vó






E mesmo quando todo o teu sangue secar
E eu não puder mais sentir tuas veias
E mesmo que tuas entranhas desapareçam
Eu permanecerei te amando ao luar

E mesmo que eu não sinta
O calor do teu corpo em abraços
Mesmo que vire pó
Tuas mãos, tuas pernas, teus braços
O meu amor por você não cessará

E mesmo que não restem mais trajes
Que a luz da sua vida tenha se apagado
Mesmo que tenham levado
O teu templo, inerte, tão frágil...
Eternamente ainda irei te admirar

E mesmo que tudo em você desfaleça
Que como as geleiras do Norte
O seu corpo em um jazigo permaneça
Eu ainda estarei daqui a te olhar

E mesmo que só restem os perfumes
Onde você costumava descansar
E ainda que seja comum tua ausência
E que nas noites de inverno
Não venhas mais me abraçar
Em meus sonhos querida
Você nunca morrerá

Tamires de Lima



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um tom de amor





Hoje eu preciso de estrelas
Para iluminar o meu céu
Que já não brilha...
Se você pudesse tocar as pétalas
Daquela rosada flor
Se eu pudesse tocar o orvalho
Que essa fria manhã de inverno
Nos impõe...
Tudo seria mais concreto
Mas isso não quer dizer
Que não simpatizo com o abstrato
Fito os lírios, as cachoeiras
Os rios que passam
Os barcos que tombam
Os navios que chegam
A imensidão tão larga
Que me abraça
E me aperta o peito...
Fito teus olhos
Tão doces
Que sorriem para mim
Desmancho-me como areia da praia
Você me faz flutuar
Meu corpo sucumbe
Sou uma estátua grega 
Olhando a sua imagem
Em meu espelho
Somos um só
Somos seres distintos
Em apenas um reflexo
Você a orquestra
Eu o corpo de baile
E juntos somos intensos
Juntos percorremos
Todo azul cerúleo
Da paleta de cores
Mas aí a chuva vem
E faz um novo tom aparecer
De sol para dó
Me reviro, me espalho
O pincéis pintam borrões
Sou Dalí no âmago do seu fim.

Tamires de Lima

terça-feira, 27 de março de 2012

Sentidos opostos



Despiu-se em pétalas
Senhora dos sonhos
 Teu corpo exalava 
Perfumes florais
Teu seio ardente
Gritava veloz
Essência divina
Em gotas de orvalho
Luar refletia
Os teus olhos negros
Sentia tão perto
Sem poder tocar
Eu anjo insano
Jogado às sombras
Tu bela sem fera
Exposta ao luar
O corvo gritava
Desejo intenso
Enquanto brincavas
Sonhando acordada
Teu corpo exposto
Em noite escura
Eu verme inerte 
Em fria madrugada
Teus lábios volúpia
Meus lábios sedentos
Sentidos opostos
De uma mesma estrada.

Tamires de Lima

sábado, 10 de março de 2012

Avivador



Eu sou a amargura na madrugada de festa
Eu me desmancho em lágrimas 
Eu sou o corvo que grita incessante
Eu sou a sua triste sonata

Eu sou o espanto 
O medo do escuro
O muro quebrado 
Pelos solavancos da vida
Eu me transformei em ferida
E preciso de alguém para curá-la

Eu sou os olhos molhados
Sangrando, jorrando
Coração aos pedaços
Os fios de cabelo jogados ao ralo
O canto sombrio, vazio
O choro calado.

Tamires de Lima

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pássaro morto




Aquele pássaro que cantava em minha janela é o mesmo que hoje está sem vida ao chão. Mais um ser em decomposição. Mais matéria para um sopro de vida. 
Mas por quê? Por que mais? Por que mais um ser que animava a minha vidinha se foi? Foi sem ao menos me cantar uma última canção. Hoje paro, hoje penso, hoje calo. Deixa-me ao menos suas asas querido anjo alado para que nas manhãs de primavera eu possa voar ao teu encontro. Ou dá-me o seu cantar, para que junto com harpas eu possa entoar a melodia dos céus. Mas não, a única coisa que me deixas é o seu olhar triste. Sim, aquele olhar fixo e sem vida das noites gélidas de inverno. Hoje fostes solto. O cadeado da vida se rompeu e procuras outros jardins. Talvez mais floridos e perfumados que o meu. Os dias de sol não serão mais os mesmos. Calo-me olhando fixamente a sua figura inerte desenhada ao chão.

Tamires de Lima