quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pousa Maria, mariposa!










Às vezes eu sinto um vendaval de figuras se enrolando em meu estômago. Elas correm, rodopiam e sobem escadas de alto a baixo. Sinto meus vasos sanguíneos como trilhas, carregando a fluidez de ácidos. Brincando e caminhando com meu alvéolo pulmonar.

Às vezes sinto uma pessoinha que desliza pelos meus tímpanos. E que ao sorrir para o alvéolo voa devagar. Oh, Maria deformada, mariposa pendendo em claves de fá. Pousa linda Maria, mariposa nesse cerúleo estelar.

Engraçado é vê-la sob minhas artérias e cheirando ao ócio da ferrugem como elas... A pequena Maria desafiando os dragões. Gritando e se esvaindo no meu eterno pulsar.



Tamires de Lima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema para minha vó






E mesmo quando todo o teu sangue secar
E eu não puder mais sentir tuas veias
E mesmo que tuas entranhas desapareçam
Eu permanecerei te amando ao luar

E mesmo que eu não sinta
O calor do teu corpo em abraços
Mesmo que vire pó
Tuas mãos, tuas pernas, teus braços
O meu amor por você não cessará

E mesmo que não restem mais trajes
Que a luz da sua vida tenha se apagado
Mesmo que tenham levado
O teu templo, inerte, tão frágil...
Eternamente ainda irei te admirar

E mesmo que tudo em você desfaleça
Que como as geleiras do Norte
O seu corpo em um jazigo permaneça
Eu ainda estarei daqui a te olhar

E mesmo que só restem os perfumes
Onde você costumava descansar
E ainda que seja comum tua ausência
E que nas noites de inverno
Não venhas mais me abraçar
Em meus sonhos querida
Você nunca morrerá

Tamires de Lima



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um tom de amor





Hoje eu preciso de estrelas
Para iluminar o meu céu
Que já não brilha...
Se você pudesse tocar as pétalas
Daquela rosada flor
Se eu pudesse tocar o orvalho
Que essa fria manhã de inverno
Nos impõe...
Tudo seria mais concreto
Mas isso não quer dizer
Que não simpatizo com o abstrato
Fito os lírios, as cachoeiras
Os rios que passam
Os barcos que tombam
Os navios que chegam
A imensidão tão larga
Que me abraça
E me aperta o peito...
Fito teus olhos
Tão doces
Que sorriem para mim
Desmancho-me como areia da praia
Você me faz flutuar
Meu corpo sucumbe
Sou uma estátua grega 
Olhando a sua imagem
Em meu espelho
Somos um só
Somos seres distintos
Em apenas um reflexo
Você a orquestra
Eu o corpo de baile
E juntos somos intensos
Juntos percorremos
Todo azul cerúleo
Da paleta de cores
Mas aí a chuva vem
E faz um novo tom aparecer
De sol para dó
Me reviro, me espalho
O pincéis pintam borrões
Sou Dalí no âmago do seu fim.

Tamires de Lima

terça-feira, 27 de março de 2012

Sentidos opostos



Despiu-se em pétalas
Senhora dos sonhos
 Teu corpo exalava 
Perfumes florais
Teu seio ardente
Gritava veloz
Essência divina
Em gotas de orvalho
Luar refletia
Os teus olhos negros
Sentia tão perto
Sem poder tocar
Eu anjo insano
Jogado às sombras
Tu bela sem fera
Exposta ao luar
O corvo gritava
Desejo intenso
Enquanto brincavas
Sonhando acordada
Teu corpo exposto
Em noite escura
Eu verme inerte 
Em fria madrugada
Teus lábios volúpia
Meus lábios sedentos
Sentidos opostos
De uma mesma estrada.

Tamires de Lima

sábado, 10 de março de 2012

Avivador



Eu sou a amargura na madrugada de festa
Eu me desmancho em lágrimas 
Eu sou o corvo que grita incessante
Eu sou a sua triste sonata

Eu sou o espanto 
O medo do escuro
O muro quebrado 
Pelos solavancos da vida
Eu me transformei em ferida
E preciso de alguém para curá-la

Eu sou os olhos molhados
Sangrando, jorrando
Coração aos pedaços
Os fios de cabelo jogados ao ralo
O canto sombrio, vazio
O choro calado.

Tamires de Lima

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pássaro morto




Aquele pássaro que cantava em minha janela é o mesmo que hoje está sem vida ao chão. Mais um ser em decomposição. Mais matéria para um sopro de vida. 
Mas por quê? Por que mais? Por que mais um ser que animava a minha vidinha se foi? Foi sem ao menos me cantar uma última canção. Hoje paro, hoje penso, hoje calo. Deixa-me ao menos suas asas querido anjo alado para que nas manhãs de primavera eu possa voar ao teu encontro. Ou dá-me o seu cantar, para que junto com harpas eu possa entoar a melodia dos céus. Mas não, a única coisa que me deixas é o seu olhar triste. Sim, aquele olhar fixo e sem vida das noites gélidas de inverno. Hoje fostes solto. O cadeado da vida se rompeu e procuras outros jardins. Talvez mais floridos e perfumados que o meu. Os dias de sol não serão mais os mesmos. Calo-me olhando fixamente a sua figura inerte desenhada ao chão.

Tamires de Lima

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sonho de uma noite de carnaval


Era um finalzinho de tarde quando eu e meus amigos estávamos indo para um rodízio de pizza. Todos muito ansiosos, pois não havíamos comido nada desde o dia anterior para aproveitar melhor o momento. Na avenida larga, já era noite e os passos apressados pareciam que de nada adiantavam. De repente, um barulho surgiu em meio àquele silêncio. Um olhou para o outro se perguntando o que acontecia... Era um trenzinho lotado de pessoas fantasiadas que tocava frevo e desfilava pela cidade, acompanhado de uma variedade de bonecos de 3 metros que se acabavam de dançar. 

As mulheres estavam vestidas de fada, as meninas de bailarinas e os meninos de jogadores de futebol, enquanto os homens preferiam as fantasias de palhaço. Se bem que... Aguardem as próximas linhas. Estávamos alegres de conhecer o carnaval pernambucano. Começamos até mesmo a cantar as marchinhas “Se a canoa não virar olê, olê, olá eu chego lá”. Porém, como quem não queria nada, veio em minha direção, em passos lentos, um homem com um spray na mão. Estava tão distraída com os bonecões que nem vi que o mesmo me seguia. De repente, senti uma coisa gelada próximo ao ouvido.Ele jogou todo o spray em meu rosto. - Ahhh, que raiva!!!  Eu exclamei irritada, limitando-me a dizer apenas isso. Na verdade queria chamá-lo de... Bom, vamos esquecer, também porque ele não tinha culpa. Eu que era sortuda de ter amigos tão legais que pediram para ele fazer aquilo, destruindo a maquiagem que eu havia levado horas para terminar. 

Depois desse episódio apressamos ainda mais os passos e quando atravessamos a ponte passando para o lado baiano, pensei que finalmente iria me deliciar com a bendita pizza. Engano meu. Ao descermos da barca avistamos um bloco onde todos se divertiam e pulavam como loucos. O pagode estava muito animado e uma multidão acabou nos puxando para aquela folia. Começamos a dançar “Ai se eu te pego”, mas quem me pegou de verdade foi a fome. Não tinha mais forças para suportar aquela situação. Pensei comigo mesma que se saísse daquele sufoco dividiria as minhas fatias de pizza com algum dos meus amigos. 

Desolada olhei para o céu que estava repleto de estrelinhas brilhantes e logo percebi que havia algo diferente. Uma corda tinha sido jogada do alto, em meio à avenida. Era um helicóptero que nos tirava daquele tumulto. Voamos uns dez minutos na tranqüilidade, sonhando em tirar a barriga da miséria, mas... Tudo foi em vão. O piloto estava indo em direção ao sudeste e nos deixou justamente em meio a uma escola de samba que desfilava incansavelmente. Mestre sala, porta bandeira, mulatas. Por todo lado que olhava todos sambavam e sorriam para os ventos. Naquele instante minhas esperanças haviam acabado. Decidi simplesmente curtir o momento e acabei descobrindo que tinha samba no pé. Ali estava eu e meus amigos cantando o samba enredo conformados, sem saber que no final de tudo o “rango” era certo. 

E assim aconteceu, quando tudo finalizou houve pizza para todos os lados. O cheiro era muito bom... Delícia que fez nossas bocas encherem d’água. A fatia havia sido tirada, mas quando ia levá-la à boca ouvi um grito. Minhas pálpebras se abriram rapidamente e o sonho acabou bem no momento em que eu ia comer. Meus amigos bradavam sem cessar... Estava no sofá deitada, sonhando e babando, enquanto todos riam da minha cara. Pior que isso só mesmo o vídeo que postaram no youtube. Agora, de verdade, ia comer a pizza. Mas, desta vez pedimos por telefone, pois depois de um pesadelo desses era melhor prevenir do que sambar.

Tamires de Lima